Após mais uma volta ao sol, volto a sentar-me em frente ao pinheiro adornado em luzinhas e efeitos, impecavelmente intacto desde o ano passado. Embora nunca me tenha debruçado (até hoje) sobre o porquê, sempre adorei o Natal. Se há exacerbação na manifestação de sentimentos, é nesta época que acontece o seu apogeu. Tudo é levado ao extremo. A esperança é inesgotável, o amor é demonstrado sem receio, tudo é bonito até mesmo o cinismo de quem não gosta de nós.
Por estes dias, enaltecemos o nosso altruísmo e empatia. As mesmas notícias são mais tocantes, os mesmos cheiros são mais perfumados, os mesmos espaços tornam-se mágicos e as mesmas palavras têm mais poder. Por alguns dias, vivemos num musical – denomino assim, pela importância da música nesta época -, que nos faz chorar, independentemente de ser por alegria ou tristeza. Regresso a este lugar, porque necessito de inspiração para abordar ou reescrever sobre o Natal. Já não há muito mais a dizer. Encontro-me na luta entre escrever algo novo ou gastar estas linhas com todas as minhas memórias felizes – recordar é viver. Durante esta guerra interna e no ano em que completo 40 anos, vem-me à cabeça um poema de José Luís Peixoto – “Na hora de pôr a mesa”.
Sendo eu uma alma velha como dirão algumas más línguas (e com toda razão), a saudade faz parte de mim. Sou saudosista, é inegavelmente um dado adquirido. Se já o sou por natureza, imaginem durante estas festividades. Ando num misto de felicidade e desolação por lembrar que há coisas que não voltam atrás, como a felicidade de receber presentes, de andar de bicicleta com o Gonçalinho, ou de receber um abraço apertado da minha mãe. E neste conflito de emoções, encontro o destino deste texto.
O natal também é saudade e, por vezes, uma saudade tão gritante que não conseguimos ouvir nada para além do silêncio da ausência. Não há Mariah Carey que nos faça vibrar, não há presente que nos roube um sorriso ou uma sala cheia que nos encha o coração…irá sempre faltar alguma coisa.
Não aceito a saudade, mas aprendi a conviver com ela. Exceto no natal. Torno-me irracional, mimado e egoísta. Gasto o meu tempo a imaginar cenários impossíveis, choro quando volto à realidade, presumindo que só a minha dor importa. Embora possa parecer uma contradição à introdução, tudo tem um sentido. Pelo menos na minha cabeça. Ao longo destes 40 anos, a minha perceção de natal foi tomando posições distintas. Já foi de fantasia e milagre, frustração e ódio, e, hoje, coloco-o serenamente no seu devido lugar. Natal é tudo. É, saudade, tristeza, solidão, amor, felicidade e esperança. Apesar de ser difícil conjugar todas estas emoções, quando as aceitamos, o natal torna-se realmente mágico.
É no poema de José Luis Peixoto, que traduzo o melhor que sei, o meu natal. A ceia não tem lugares vazios à mesa, em que cada lugar preenchido com as memórias dos seus sorrisos e histórias para contar. “Na hora de pôr a mesa”, estamos todos, TODOS. E essa é a magia e o porquê de gostar tanto do Natal.
Paulo Khan