“Liberdade”, foi a palavra escolhida pelos portugueses no ano de 2024. Acredito que os 50 anos do 25 de Abril, tenham tido a sua importância no momento da escolha. Agora que tento escrever um texto em sua homenagem, percebo a sua complexidade e não deverá haver palavra que carrega em si mesma tanto de esperança como de perigo. Talvez seja mesmo isso. A sua vivência não permite que exista uma definição exata, sem que esta seja associada a um “equilíbrio” ou “perspetiva”.
Em termos de perspetiva será fácil compreender o seu alcance. Não precisamos de levantarmo-nos do sofá, nem compreender muito de política, para saber o quanto somos privilegiados na nossa liberdade em comparação com tantos outros povos. Vivemos numa democracia plena, onde temos voz e poder de voto. Mesmo com todos os seus defeitos, na sua classificação é a mais livre, comparada com a Democracia Imperfeita ou Híbrida.
Sei o que podem estar a pensar: “e os que vivem na m*** aqui?” – fico feliz se essa questão vos inquieta, pois demonstra compaixão e empatia e é isso que temos para viver em paz. A perspetiva de liberdade também varia em função da condição de vida de cada um.
Sou um acérrimo convicto de que, independentemente do que esteja em debate, a fórmula perfeita está no equilíbrio.
Lutou-se tanto para conquistar a liberdade que nos perdemos no caminho do seu equilíbrio. Passamos de amarras para a necessidade de avisar que “a nossa liberdade acaba, quando começa a do outro” – conceito que deverá ser retificado, na minha opinião – constantemente. Deram-nos a liberdade de escrever ou falar no mesmo comprimento de onda da nossa imaginação e, ainda, nos “oferecem” um palco e megafone através das redes sociais. Da mesma forma que a imaginação não tem regras, também nos libertaram das “mordaças”, acabando com os “fact checks”, alegando ser uma forma de “voltar às raízes da liberdade de expressão”. Adoro a incongruência desta afirmação!
“Vamos acabar com a verificação dos factos, para voltarmos às raízes da liberdade de expressão” – Não. Voltemos à verificação de factos como repúdio às raízes de segregação, discriminação e abuso do poder. Não se pode confundir veracidade com falta de liberdade. E aqui esbarramo-nos com o perigo da liberdade e com o valor do seu equilíbrio.
Hoje temos “voz” e todo o direito e dever de a usar. Lutar pelo que acreditamos, colocar o “dedo na ferida” expondo tudo o que achamos incorreto ou injusto e clamar pela nossa felicidade e bem-estar.
Mas não nos aproveitemos da nossa liberdade para a libertação de um ódio desmedido, muitas vezes tendo por base a mentira e as más interpretações que advêm da inércia de procurar saber a história e a verdadeira verdade (desculpem a redundância). Ter uma certa lucidez histórica ajuda-nos a desconstruir e a confrontar as mentiras e os cinismos históricos de hoje. É nesse equilíbrio que podemos encontrar a definição correta de liberdade.
Paulo Khan