A Paixão não justifica a VIOLÊNCIA

Apaixonado por Desporto, uso todo o meu exagero característico nos diálogos e discursos quando digo que tenho um clube de coração. Amar um clube, é vivê-lo como parte ativa do nosso sentido de pertença a uma família grande, maior, coletiva.

Quem me conhece, sabe perfeitamente que tenho sempre um dia sorridente quando o meu clube ganha. O contrário acontece quando aquele clube que mexe com as minhas emoções, bate de frente com uma derrota. Confesso sem pudor, o dia torna-se cinzento e aborrecido. É assim que vivo o desporto. Na verdade, é com este vulcão que muita gente vive, respira e olha para o desporto. Este poder de nos fazer amar um clube, de todas as coisas boas (e são muitas), poderá dar uma falsa sensação de um poder quase divino.

Quero aproveitar este espaço para vos dar uma notícia que poderão achar chocante, mas sinto que o deva fazer. Partilharei em voz alta, na esperança de que a mensagem chegue mais longe: NEM TUDO É DESCULPÁVEL NO DESPORTO.

Morrer inocentemente por um “very light”, NÃO É DESCULPÁVEL.

Esfaquear mortalmente alguém que não defenda as mesmas cores, NÃO É DESCULPÁVEL.

Insultar e agredir gratuitamente uma pessoa que não é do nosso clube, NÃO É DESCULPÁVEL.

Obrigar uma criança a ficar de tronco nu por ser de outro clube, NÃO É DESCULPÁVEL.

Cuspir e insultar um pai e sua filha por estes estarem a apoiar a equipa adversária, NÃO É DESCULPÁVEL.

Falecerem quase 200 pessoas num confronto entre “adeptos” e policia, NÃO É DESCULPÁVEL.

Vandalizar uma cidade com 30 indivíduos vestidos de forma monocromática, NÃO É DESCULPÁVEL.

Sinto que tudo isto fez o meu amor pelo desporto esmorecer e até perder um pouco do seu encanto. Não tenho forças para combater todo este lado obscuro. Não posso nem quero acreditar que a percentagem de pessoas que vivem erradamente o desporto se sobreponha às que o amam de forma certa e fraternal. Terá de haver uma maneira de sermos melhor do que esta violência bárbara, desumana e que tanto envergonha quem vê no desporto um espaço de INCLUSÃO, de SOLIDARIEDADE e de HUMANISMO.

Sejamos nobres, sejamos unidos, é isso que o Desporto nos ensina. Escrevo estas linhas, enquanto observo a minha filha a tentar marcar um cesto num aro improvisado e encontro-me no conflito entre o entusiasmo de querer levá-la a ver um jogo e a vontade de que ela nunca vá a um recinto desportivo com medo de que algo lhe aconteça, por alguém que pode não entender a nobreza que é o Desporto. Será um processo difícil, mas aos poucos temos que começar a mudar mentalidades.

NÃO QUERO adiar para um outro dia, mesmo rabugento e frustrado, este meu sentido de cidadania no Desporto.

 

Paulo Khan

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