Rita Bulhosa: "Tenho perfeita noção que o privilégio de ser a voz de quem não a tem"
04 NOV 2019

Rita Bulhosa: "Tenho perfeita noção que o privilégio de ser a voz de quem não a tem"

Quem é a Rita Bulhosa hoje?

Sou uma jovem adulta, universitária, com muita ansiedade em relação ao que o futuro me reserva, mas em simultâneo feliz com o caminho percorrido até aqui e acima de tudo, bem resolvida com a vida. 

Como foi viver o teu ano de caloira?

Foi um ano muito intenso. É tudo novo, as aulas são diferentes, mas o melhor de tudo foram as amizades que fiz, a praxe e a ano como caloira foi uma surpresa boa para mim. Vivi momentos muito felizes, onde fui sempre incluída e o facto de ter mobilidade reduzida nunca foi desculpa para nada. Sempre fui incluída de forma a poder viver a minha vida académica da mesma forma que outro jovem universitário. 

Que recordações te saltam à memória de um ano que parece já tão distante, agora, que vivemos tão depressa? 

A serenata para mim foi o momento mais bonito que vivi como caloira. A minha família vive os meus momentos especiais com muita intensidade e nesse dia estavam lá todos, para me aplaudir e ver vestir o traje pela primeira vez. Outro momento foi a passagem da tribuna com os meus amigos de curso, que me empurraram a cadeira durante todo o cortejo e sem dúvida ajudaram-me a chegar sempre mais longe. Foi sentir que fui capaz de chegar ali apesar de ter tido dois semestres cansativos e um ano em que fui muito para além do meu limite físico e ainda assim concluí de forma tão emocionante aquela etapa.

Sabes que causaste um enorme impacto naqueles que te viram no cortejo académico no Porto acompanhada pelos teus colegas de curso. Sentes que isso pode mudar algumas mentalidades?

Acredito sinceramente que sim. Ainda mais porque a vida académica e neste caso em concreto a praxe nunca é muito bem vista, pela sociedade em geral. A verdade é que no início eu também achava que a praxe não era nada o meu género (risos). O facto é que todos os preconceitos e receios que tinha acabaram por se dissipar, porque me senti verdadeiramente acolhida. Acho que foi uma aprendizagem conjunta, pois devo ter sido das primeiras pessoas sobre rodas da escola das artes da UCP a quer entrar para a praxe (risos).  Na altura lembro-me que quando fui ter com a comissão de praxe a dizer que queria entrar para a praxe acharem imensa piada e toda a gente ao longo do ano, me encorajava imenso. Tenho a certeza que fiz a diferença na vida deles, porque mostrei que tudo era possível e eles fizeram-me sentir uma “pessoa normal” sem limitações para nada. Ensinaram-me o verdadeiro sentido da amizade companheirismo e entreajuda.

Portugal está a tornar-se num país que discute abertamente as diferenças, onde se fala e se ouve. Apesar dessa mudança, ainda achas que existem pessoas com ignorância e preconceito para com a diferença?

Mesmo estando já no nível universitário, tenho noção que há muita gente que não acredita, apesar de tudo, nas minhas capacidades. Penso que, embora havendo já uma grande abertura para discutir estas questões, é preciso menos palavras e mais ação. É isso que falta à nossa sociedade, agir concreta e verdadeiramente.

Acreditas que és uma ponte entre todos aqueles que estão na mesma situação? Sentes que és aquela que os apresenta à sociedade?

Sim, acredito. A verdade é que, e digo isto sem nenhum tipo de pretensiosismo, o meu blog é dos únicos, senão o único, em Portugal, que fala de paralisia cerebral e da diferença na primeira pessoa, da forma mais sincera possível, sem rodeios nem deturpações da realidade/dia-a-dia de uma pessoa com deficiência. 

O que foi para ti ser uma adolescente com um problema que muitos acham invencível? 

Ao contrário do que provavelmente acontece com a maior parte das pessoas, para mim a fase da adolescência até foi pacífica (risos). Isto é, apesar das crises existenciais, foi provavelmente a altura em que mais fiz amizades com pessoas da minha idade. É claro que foi uma fase de muitas mudanças, mas que não representaram propriamente uma tragédia emocional dentro de mim (risos).

Os elogios que te vão dando levam-te a fazer sempre o melhor sem ceder? Como dantes? Como sempre?

Sim, sem dúvida. Tenho perfeita noção que o privilégio de ser a voz de quem não a tem, não é para todos. Tenho de manter os pés bem assentes na terra e com a plena consciência de que tenho de produzir conteúdo, que obviamente seja útil e dê voz ao meu público-alvo, pois só assim poderei progredir e fazer a diferença na vida de quem me lê e também na própria sociedade, onde o agitar das consciências é o primeiro passo para a mudança de mentalidades e paradigmas.

Como olhas para os jovens de hoje em dia e que conselhos lhes darias?

Nós, os jovens, temos o mundo e uma vida pela frente repleto de oportunidades, mas, na minha opinião, precisávamos de ter mais vontade e determinação para lutarmos mais por aquilo que realmente queremos e nos faz felizes.

 

Qual é o teu lema de vida?

É a determinação. Ela é chave para os sucessivos acontecimentos que me vão acontecendo ao longo da vida. Sem ela não há vontade nem ambição para chegar sempre mais longe.