Favores e Boas Ações

Alguns dias atrás, enquanto a minha filha repousava no meu peito, decidimos aproveitar o momento para ver um filme, “Coco”. O enredo desenrola-se durante a celebração dos dias dos mortos no México e, como acontece em todos os filmes da Disney, está repleto de momentos belíssimos e de reflexão. Acreditando não estar a ser spoiler, dizer que o filme assenta na premissa que iremos desaparecer para sempre, quando já não houver ninguém que se lembre de nós. Terminado o filme e já com a pequena concentrada em brincar com tudo e com nada ao mesmo tempo, dei por mim a pensar na minha vida e no que quero para o futuro. Independentemente da nossa idade, devemos sempre preocuparmo-nos com o desconhecido que está para vir.

Tenho em mente este desejo: deixar a minha marca neste mundo, ou pelo menos ser lembrado durante muito tempo. Para isso, tenho de construir um legado que possa ser estimado e, orgulhosamente, recordado pelos meus descendentes. Consciente ou inconscientemente, penso que todos gostamos de ser reconhecidos. Agora, os caminhos para lá chegar, vão depender de cada um de nós.

Quero criar uma narrativa, uma história que começa em mim e que permaneça longos anos após o meu desaparecimento. Quero ser lembrado pela minha filha e restante descendência como alguém que deu sentido à vida e que teve o seu papel ativo no mundo. Não precisamos mudar o mundo inteiro, porém, não devemos fechar os olhos aos que nos rodeia, importando-nos apenas com o que nos afeta.

“Pay it foward”, um filme do ano 2000 e, que, ainda hoje, tem muito para ensinar. A história relata a vida de um professor solitário que tenta mudar o mundo para melhor, pedindo aos seus alunos que, cada um retribuísse um favor, fazendo o mesmo a 3 pessoas distintas. Criando assim, tal como diz o título em português, “Favores em cadeia”.

Vamos trocar a conotação de “favor” por “boa ação”. Até quantas pessoas chegaria essa cadeia? Que impacto teria na dinâmica social? São questões que me coloco muitas vezes. Um dos programas que coordeno, enquanto técnico da Câmara Municipal, é dar exercício físico a doentes oncológicos. Pulsar, é o seu nome. Se no início, o receio preenchia todo o meu pensamento em dar treino a esses utentes, hoje o sentimento é totalmente distinto. Abraço o projeto com todas as minhas forças, dando o melhor de mim para ajudar quem tem que lutar contra este problema. Troquei o receio pelo entusiamo, adicionando empenho, cuidado e pela procura em dar o melhor de mim a cada uma dessas pessoas.

Através do Pulsar tenho conhecido pessoas fascinantes, com vidas vibrantes e com tantas lições de vida. Retenho todas as memórias possíveis de guardar, pois isso enriquece-me como pessoa e como ser social. Por causa dessas pessoas, sei dar importância à dignidade pessoal, à inclusão e compreendo o valor comunitário da diversidade.

Hoje, enquanto penso no filme que assisti com a minha filha e em tudo que os utentes têm feito por mim, concluo o seguinte: primeiro, já sei como quero ser recordado; segundo, o Pulsar já me fez um favor, agora, é a minha vez de retribuir.

 

Paulo Khan